Anohni, beleza no meio do caos

HOPELESSNESS é a estreia de Anohni, artista anteriormente conhecida como Antony Hegarty. A transformação é de citar ao arranque deste texto, porque o álbum de que se fala a seguir é uma revolução em ebolição.

Antony Hegarty trazia-nos frases de doer a alma, músicas portentosas capazes de despir todas aquelas coisas que inventamos para tapar o que não fica bem andar por aí a sentir, na vulgaridade de qualquer dia-a-dia. Anohni traz-nos músicas bonitas. Ou assim parecia.

Com “4 Degrees”, surgiu a vontade de ouvir mais do disco de Anohni. A memória do concerto de Antony no NOS Primavera Sound do ano passado estava ainda bem viva quando aquele single de estreia foi lançado. (Ou tão viva quanto possível, já que a artista é ela mesma uma forma desfocada diante dos nossos olhos. Uma forma desfocada que torna tão difícil escolher o feminino ou o masculino para a nomear e que faz querer pensar nela simplesmente como o “anjo” que, certeza vez, Lou Reed lhe chamou.)

Dizia que Anohni parecia ter produzido um álbum bonito, onde a melodia assegura a serenidade. Até que o cenário idílico se quebrou quando começaram a agredir-nos palavras como “chemotherapies”, “virus”, “child molesters”, “terrorism”.

Este disco é de uma falta de esperança atroz. Aqui, a “fé na humanidade” deixa de ser uma expressão usada de ânimo leve e passa a trespassar-nos como uma preocupação urgente.

E, ainda assim, é um disco tão bonito. Apesar do cenário apocalíptico de “4 Degrees” e dos perigos infligidos pelos “homens violentos” aqui descritos, estas músicas são de uma emotividade comovente. Há drones que bombardeiam montanhas e pessoas inocentes decapitadas. Há uma actualidade premente, quase como se a música de intervenção se tornasse obra prima. Há crises, guerras, decapitações e maldade, no geral. Há uma crítica feroz ao estilo de vida americano, focado nos seus extremos. Mas todos estes temas fazem parte de Anohni, já mesmo antes de o ser.

Os males de amor não podiam faltar, mas ficaram confinados a “I Don’t Love you Anymore”. (Mas não se deixem enganar pelo título, que isto é sobre traição e não falta de amor. Toma nota, Beyoncé.)

No que toca aos sons, Anohni atalhou o caminho da pop com a electrónica que já tinha experimentado, em colaborações como a que fez com os Hercules and Love Affair.

HOPELESSNESS impõe-se assim mesmo, em maiúsculas gritantes. É duro e, ao mesmo tempo, pacificador. É intenso mas indispensável.

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