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As orações de Norberto Lobo

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Ler artigo originalmente publicado na Look Mag

Uma noite fria de quinta-feira e um cemitério à espera. Norberto Lobo para ver a apresentar “Fornalha”, álbum lançado no final do ano passado, com organização da ZDB. Tem tudo para correr bem.

Passados altos portões, é inevitável imaginarmo-nos a entrar num filme de terror. Um cemitério frio e escuro espera-nos do lado de lá, campas com homenagens empedradas em estatuetas ladeiam o trajecto. Ao fundo, uma igreja para onde seguem vultos indistinguíveis. Sabemos que vamos encontrar lá dentro um dos maiores guitarristas que Portugal conheceu nos últimos anos. Norberto Lobo assegura só pelo nome uma noite única. O cenário trata do resto.

Concerto esgotado e expectativas em alta, é assim que Norberto Lobo encontra a Igreja St. George. Espectadores ansiosos por mais um concerto do músico, mais uma confirmação. “Fornalha” saiu há pouco e já é apontado por alguns como o melhor trabalho do guitarrista. Tem cinco faixas apenas e arranca com a homónima, como há-de acontecer no concerto de 15 de Janeiro.

A entrada rasga o silêncio quase arrepiante que o apagar das luzes impôs. E rasga-o como o arco que Norberto Lobo usa sobre as cordas da guitarra parecem arranhar a melodia que daí sai. Aqui não há o dedilhar que já lhe conhecemos, mas antes um agarrar com mão cheia a música. Também o público fica agarrado a ela, enquanto “Fornalha” cresce e se estende para ocupar todo o espaço (e o ar) da igreja do século XIX. Deixa-nos em suspenso e parecemos fiéis, numa espécie de culto musical.

«Maryam» é a segunda faixa. Seguem-lhe «Fran», «Pen Ward» e «Eu Amo» (10 minutos para os quais o descritivo “emocionantes” é escasso). Cada uma, uma pequena viagem de variações tão pacíficas quanto harmónicas. Repetem, cada uma ao seu jeito, aquele exercício de suspensão do ouvinte.

Está apresentado “Fornalha”. O concerto estende-se por mais de uma hora, sem que sejam precisas palavras ou explicações. As atenções concentram-se todas no único foco de luz do espaço, esse palco-altar onde Norberto Lobo toca sem interrupções as músicas que são tão suas. Acaba tudo depressa demais.

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