Francisca Cortesão

Carga de ombro é legal

© Rita Carmo

© Rita Carmo

Há todo um mundo de metáforas futebolísticas que me passam ao lado, no novo disco do Samuel Úria.

Tem por título Carga de Ombro, coisa que parece que é legal no relvado. Aqui estão 12 músicas novas, com “Dou-me Corda” à cabeça. O single de estreia fazia crer que este álbum seria sombrio. Mas ontem Samuel Úria abriu-nos a porta de Carga de Ombro no espectáculo de apresentação do disco, no Teatro São Luiz, envergando um kimono primaveril que alguém, em boa hora, apelidou de “robe’n’roll”.

Ficámos a saber que, de sombrio, só mesmo as artes gráficas. Há baladas dentro deste álbum, porque parece que o músico não lhes consegue resistir (ele que já disse não ser baladeiro, não consegue resistir a si mesmo e entrega-nos faixas como “Graça Comum” e “Vem Por Mim”). Há músicas agitadas/de agitação, como “Repressão” e “Palavra-Impasse”. Há uma canção dedicada ao amigo Bruno Morgado, “Aeromoço”. E há (só?) uma música que vai agigantar-se pelos anos adentro: “Ei-lo”.

Quando “Ei-lo” começa a tocar, de mansinho, não adivinhamos que vai crescer para se fazer explodir num coro quase gospel. Selma Uamusse aparece de repente no disco e no palco do São Luiz, para engrandecer ainda mais esta letra e este coro. Vai acontecer-lhe fazer parte dos alinhamentos futuros, quando surgirem novos discos. É assim também com outras faixas presentes no alinhamento deste concerto de apresentação: “Lenço Enxuto”, música de Grande Medo do Pequeno Mundo (2013), gravada com a participação de Manuel Cruz. Nunca tinha percebido a dimensão que esta música ganhou, mas ficou ali provado que ganhou propriedade e muitas propriedades diferentes. É cantada por todo o público.

Do passado, surgem ainda “Império”, “Não Arrastes o Meu Caixão”, “Diabo” e “Nem Lhe Tocava”. Fazem parte do disco de 2009 e dão margem à banda para que mostre capacidade. Há aqui competência, dedicação e espírito de família. Em palco estão os músicos que costumam acompanhar Samuel Úria e um coro de vozes que vão complementando algumas músicas.

Mas regressemos a Carga de Ombro. “É Preciso Que eu Diminua” apanha-nos a atenção desprevenida. Aqui, os jogos de palavras habituais em Samuel Úria dão lugar aos jogos de ideias. Ficamos a pensar no que será de diminuir, numa personagem que nos canta que só sabe crescer. É a outra favorita. Mas nisto das canções, os favoritismos variam com os humores e o tempo. E estas são canções que vão viver por muito tempo.

No tópico das canções que vivem uma vida (e muitas vidas), aparece-nos aqui “Kiss”. Sim, Prince invade este concerto, sem que nada o pudesse antever. Samuel Úria faz a abertura de “Kiss” em falsete, de rótulas a bater uma na outra, até que esta cover oportuna se transforma em “Teimoso”.

Depois de três encores, Samuel Úria não quer acabar o concerto. Inventa então uma despedida para ir ficando mais um pouco. Desce do palco com a sua guitarra e percorre a sala do São Luiz, seguido dos músicos. Repete o tema que dá nome ao disco, enquanto o coro vai cantando “põe o teu ombro junto ao meu/carga de ombro é legal/põe o meu nome junto ao teu/carga de ombro é legal”. Surgem aplausos mas, quando estes se esgotam, continuamos a ouvir o coro, ao fundo: “Põe o meu nome junto ao teu”…

Este álbum anda a arrebatar estrelas de toda a crítica e diz-se por aí que é sublime na escrita. Samuel Úria sempre foi mestre a brincar com as palavras. Mas aqui aparece a fazer coisas como “aspirar o pop”.

Falta dizer tanto sobre este disco. David Fonseca toca bateria, Francisca Cortesão participa com a sua voz. E não há nenhuma música com a Márcia. O Filipe Cunha Monteiro realizou o vídeo de “Dou-me Corda” e Samuel Úria descreveu-o da melhor maneira possível: “Robe’n’roll, blues menor em gattopardo, Gospel que não vê um pente.”

É tudo bom.

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Slow, canções para consumir antes do Verão

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A propósito de Samuel Úria, e no capítulo dos regressos, os Minta & The Brook Trout tem álbum e cara novos.

Slow é o sucessor de Olympia, um dos discos nacionais mais aclamados de 2012 e a que apetece sempre voltar. Desde então, a banda reestruturou um pouco da sua composição e trouxe novos membros para o novo trabalho, lançado em Fevereiro. Francisca Cortesão e Mariana Ricardo fazem-se acompanhar agora por Tomás Sousa, Margarida Campelo e Bruno Pernadas. Nomes de peso que garantem sucesso ao disco da banda, nesta nova fase. A sua raiz folk, essa, mantém-se inalterada.

Em Slow, encontramos canções – na mais pura acepção da palavra. Aqui estão histórias, cantadas devagarinho, para ouvir com calma debaixo de um sol quente de Primavera, a estação mais aconselhada para consumo do novo disco dos Minta. Prova disso mesmos é “I Can’t Handle The Summer”, o single de estreia que dá uma ideia do espírito deste álbum e que vem acompanhado de um vídeo a fazer lembrar as férias de Verão passadas na praia.

Slow já foi apresentado ao vivo, no CCB, e soma datas para os próximos meses, para consultar aqui.