The National

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© Chris Godley

Já não se consegue perceber onde começou o fenómeno. A minha aposta vai para a origem na alternativa, com roubo posterior pelo mainstream.

Mas isso de pouco serve em efeitos práticos, porque a verdade é que os The National tornaram-se uma banda obrigatória para muitos públicos diferentes.

O truque é não deixar que estas canções da depressão, com letras tristes e melodias poderosas, se instalem demasiado cá dentro. Ou acabamos a verter lágrimas aos primeiros acordes, como aquele rapaz ali do lado.

Melhor mesmo é não arriscar.

Brian Wilson não é deste tempo

Como é que se recebe uma lenda? A resposta é difícil. Fazem-se homenagens com capas de jornais. As televisões ficam a postos para relatar cada momento. As músicas são repetidas até à (quase) exaustão, recordando este ou aquele pormenor.

Eram sete da tarde e até o céu se abriu para receber Brian Wilson. No Parque da Cidade, apresentava-se o cérebro por detrás dos Beach Boys e de um dos mais aclamados álbuns de sempre. Para tocar Pet Sounds, no 50º aniversário do seu lançamento, Brian Wilson trouxe consigo o companheiro da banda original, Al Jardine, e uma banda dedicada a representar todo o espírito da Califórnia dos anos 60, desde as camisas coloridas aos penteados de antigos surfistas.

Brian Wilson teve uma vida de altos e baixos, mais psicológicos do que de outra natureza. Conheceu o sucesso e as sombras, num percurso que pudemos recordar no recente filme “Love & Mercy”. E, no entanto, conseguiu criar algumas das músicas mais bonitas de sempre, mesmo que as suas letras digam coisas pouco felizes.

O público do NOS Primavera Sound 2016 soube receber Brian Wilson. Mas pareceu gostar mais do músico que criou hits de juventude, como “Surfin’ USA”, do que da mastermind que deu ao mundo as sessões de Pet Sounds. Sabemos, ainda assim, que as lendas se fazem da música que dura no tempo, em qualidade, mérito e sucesso. Pet Sounds nunca foi o disco mais popular dos Beach Boys. É um disco de culto, para lá dos sixties e do surf rock da época.

Aos 73 anos, Brian Wilson atreve-se a fazer uma tour. A alegria de poder vê-lo ao vivo esmoreceu um pouco quando, no Porto, deixou aos colegas da banda o ónus de cantar grande parte das músicas que estiveram no alinhamento. Quando se dirigiu ao público, percebemos porquê. A sua voz arrastada é sinal de alguma debilidade.

Mas a uma lenda perdoa-se tudo. Ali está Brian Wilson, com a energia que a idade lhe permite ter, a interpretar as músicas que contam uma parte da sua história. É isso que vemos quando apresenta “I Just Wasn’t Made For These Times”, pedindo ao público, com veemência, que oiça a letra da música e perceba quão triste é. Parece ter-se esquecido de que foi o próprio que a escreveu. É comovente quando se ouve a sua voz (a sua, felizmente) entoar sometimes I feel very sad. Quem nunca.

A apresentação de Pet Sounds termina mas o espectáculo está estruturado a pensar em todos os públicos. E, por isso, não chega ao fim sem tocar, em jeito de medley, alguns dos maiores êxitos dos Beach Boys. O público dança. O sol põe-se. E o rosto, ainda jovem, de Brian Wilson é projectado no ecrã do palco. Ao piano, o músico parece ter-se perdido algures dentro de si mesmo.

Ou talvez Brian Wilson não pertença mesmo a este tempo.

Anohni, beleza no meio do caos

HOPELESSNESS é a estreia de Anohni, artista anteriormente conhecida como Antony Hegarty. A transformação é de citar ao arranque deste texto, porque o álbum de que se fala a seguir é uma revolução em ebolição.

Antony Hegarty trazia-nos frases de doer a alma, músicas portentosas capazes de despir todas aquelas coisas que inventamos para tapar o que não fica bem andar por aí a sentir, na vulgaridade de qualquer dia-a-dia. Anohni traz-nos músicas bonitas. Ou assim parecia.

Com “4 Degrees”, surgiu a vontade de ouvir mais do disco de Anohni. A memória do concerto de Antony no NOS Primavera Sound do ano passado estava ainda bem viva quando aquele single de estreia foi lançado. (Ou tão viva quanto possível, já que a artista é ela mesma uma forma desfocada diante dos nossos olhos. Uma forma desfocada que torna tão difícil escolher o feminino ou o masculino para a nomear e que faz querer pensar nela simplesmente como o “anjo” que, certeza vez, Lou Reed lhe chamou.)

Dizia que Anohni parecia ter produzido um álbum bonito, onde a melodia assegura a serenidade. Até que o cenário idílico se quebrou quando começaram a agredir-nos palavras como “chemotherapies”, “virus”, “child molesters”, “terrorism”.

Este disco é de uma falta de esperança atroz. Aqui, a “fé na humanidade” deixa de ser uma expressão usada de ânimo leve e passa a trespassar-nos como uma preocupação urgente.

E, ainda assim, é um disco tão bonito. Apesar do cenário apocalíptico de “4 Degrees” e dos perigos infligidos pelos “homens violentos” aqui descritos, estas músicas são de uma emotividade comovente. Há drones que bombardeiam montanhas e pessoas inocentes decapitadas. Há uma actualidade premente, quase como se a música de intervenção se tornasse obra prima. Há crises, guerras, decapitações e maldade, no geral. Há uma crítica feroz ao estilo de vida americano, focado nos seus extremos. Mas todos estes temas fazem parte de Anohni, já mesmo antes de o ser.

Os males de amor não podiam faltar, mas ficaram confinados a “I Don’t Love you Anymore”. (Mas não se deixem enganar pelo título, que isto é sobre traição e não falta de amor. Toma nota, Beyoncé.)

No que toca aos sons, Anohni atalhou o caminho da pop com a electrónica que já tinha experimentado, em colaborações como a que fez com os Hercules and Love Affair.

HOPELESSNESS impõe-se assim mesmo, em maiúsculas gritantes. É duro e, ao mesmo tempo, pacificador. É intenso mas indispensável.

Carga de ombro é legal

© Rita Carmo

© Rita Carmo

Há todo um mundo de metáforas futebolísticas que me passam ao lado, no novo disco do Samuel Úria.

Tem por título Carga de Ombro, coisa que parece que é legal no relvado. Aqui estão 12 músicas novas, com “Dou-me Corda” à cabeça. O single de estreia fazia crer que este álbum seria sombrio. Mas ontem Samuel Úria abriu-nos a porta de Carga de Ombro no espectáculo de apresentação do disco, no Teatro São Luiz, envergando um kimono primaveril que alguém, em boa hora, apelidou de “robe’n’roll”.

Ficámos a saber que, de sombrio, só mesmo as artes gráficas. Há baladas dentro deste álbum, porque parece que o músico não lhes consegue resistir (ele que já disse não ser baladeiro, não consegue resistir a si mesmo e entrega-nos faixas como “Graça Comum” e “Vem Por Mim”). Há músicas agitadas/de agitação, como “Repressão” e “Palavra-Impasse”. Há uma canção dedicada ao amigo Bruno Morgado, “Aeromoço”. E há (só?) uma música que vai agigantar-se pelos anos adentro: “Ei-lo”.

Quando “Ei-lo” começa a tocar, de mansinho, não adivinhamos que vai crescer para se fazer explodir num coro quase gospel. Selma Uamusse aparece de repente no disco e no palco do São Luiz, para engrandecer ainda mais esta letra e este coro. Vai acontecer-lhe fazer parte dos alinhamentos futuros, quando surgirem novos discos. É assim também com outras faixas presentes no alinhamento deste concerto de apresentação: “Lenço Enxuto”, música de Grande Medo do Pequeno Mundo (2013), gravada com a participação de Manuel Cruz. Nunca tinha percebido a dimensão que esta música ganhou, mas ficou ali provado que ganhou propriedade e muitas propriedades diferentes. É cantada por todo o público.

Do passado, surgem ainda “Império”, “Não Arrastes o Meu Caixão”, “Diabo” e “Nem Lhe Tocava”. Fazem parte do disco de 2009 e dão margem à banda para que mostre capacidade. Há aqui competência, dedicação e espírito de família. Em palco estão os músicos que costumam acompanhar Samuel Úria e um coro de vozes que vão complementando algumas músicas.

Mas regressemos a Carga de Ombro. “É Preciso Que eu Diminua” apanha-nos a atenção desprevenida. Aqui, os jogos de palavras habituais em Samuel Úria dão lugar aos jogos de ideias. Ficamos a pensar no que será de diminuir, numa personagem que nos canta que só sabe crescer. É a outra favorita. Mas nisto das canções, os favoritismos variam com os humores e o tempo. E estas são canções que vão viver por muito tempo.

No tópico das canções que vivem uma vida (e muitas vidas), aparece-nos aqui “Kiss”. Sim, Prince invade este concerto, sem que nada o pudesse antever. Samuel Úria faz a abertura de “Kiss” em falsete, de rótulas a bater uma na outra, até que esta cover oportuna se transforma em “Teimoso”.

Depois de três encores, Samuel Úria não quer acabar o concerto. Inventa então uma despedida para ir ficando mais um pouco. Desce do palco com a sua guitarra e percorre a sala do São Luiz, seguido dos músicos. Repete o tema que dá nome ao disco, enquanto o coro vai cantando “põe o teu ombro junto ao meu/carga de ombro é legal/põe o meu nome junto ao teu/carga de ombro é legal”. Surgem aplausos mas, quando estes se esgotam, continuamos a ouvir o coro, ao fundo: “Põe o meu nome junto ao teu”…

Este álbum anda a arrebatar estrelas de toda a crítica e diz-se por aí que é sublime na escrita. Samuel Úria sempre foi mestre a brincar com as palavras. Mas aqui aparece a fazer coisas como “aspirar o pop”.

Falta dizer tanto sobre este disco. David Fonseca toca bateria, Francisca Cortesão participa com a sua voz. E não há nenhuma música com a Márcia. O Filipe Cunha Monteiro realizou o vídeo de “Dou-me Corda” e Samuel Úria descreveu-o da melhor maneira possível: “Robe’n’roll, blues menor em gattopardo, Gospel que não vê um pente.”

É tudo bom.