Márcia

Carga de ombro é legal

© Rita Carmo

© Rita Carmo

Há todo um mundo de metáforas futebolísticas que me passam ao lado, no novo disco do Samuel Úria.

Tem por título Carga de Ombro, coisa que parece que é legal no relvado. Aqui estão 12 músicas novas, com “Dou-me Corda” à cabeça. O single de estreia fazia crer que este álbum seria sombrio. Mas ontem Samuel Úria abriu-nos a porta de Carga de Ombro no espectáculo de apresentação do disco, no Teatro São Luiz, envergando um kimono primaveril que alguém, em boa hora, apelidou de “robe’n’roll”.

Ficámos a saber que, de sombrio, só mesmo as artes gráficas. Há baladas dentro deste álbum, porque parece que o músico não lhes consegue resistir (ele que já disse não ser baladeiro, não consegue resistir a si mesmo e entrega-nos faixas como “Graça Comum” e “Vem Por Mim”). Há músicas agitadas/de agitação, como “Repressão” e “Palavra-Impasse”. Há uma canção dedicada ao amigo Bruno Morgado, “Aeromoço”. E há (só?) uma música que vai agigantar-se pelos anos adentro: “Ei-lo”.

Quando “Ei-lo” começa a tocar, de mansinho, não adivinhamos que vai crescer para se fazer explodir num coro quase gospel. Selma Uamusse aparece de repente no disco e no palco do São Luiz, para engrandecer ainda mais esta letra e este coro. Vai acontecer-lhe fazer parte dos alinhamentos futuros, quando surgirem novos discos. É assim também com outras faixas presentes no alinhamento deste concerto de apresentação: “Lenço Enxuto”, música de Grande Medo do Pequeno Mundo (2013), gravada com a participação de Manuel Cruz. Nunca tinha percebido a dimensão que esta música ganhou, mas ficou ali provado que ganhou propriedade e muitas propriedades diferentes. É cantada por todo o público.

Do passado, surgem ainda “Império”, “Não Arrastes o Meu Caixão”, “Diabo” e “Nem Lhe Tocava”. Fazem parte do disco de 2009 e dão margem à banda para que mostre capacidade. Há aqui competência, dedicação e espírito de família. Em palco estão os músicos que costumam acompanhar Samuel Úria e um coro de vozes que vão complementando algumas músicas.

Mas regressemos a Carga de Ombro. “É Preciso Que eu Diminua” apanha-nos a atenção desprevenida. Aqui, os jogos de palavras habituais em Samuel Úria dão lugar aos jogos de ideias. Ficamos a pensar no que será de diminuir, numa personagem que nos canta que só sabe crescer. É a outra favorita. Mas nisto das canções, os favoritismos variam com os humores e o tempo. E estas são canções que vão viver por muito tempo.

No tópico das canções que vivem uma vida (e muitas vidas), aparece-nos aqui “Kiss”. Sim, Prince invade este concerto, sem que nada o pudesse antever. Samuel Úria faz a abertura de “Kiss” em falsete, de rótulas a bater uma na outra, até que esta cover oportuna se transforma em “Teimoso”.

Depois de três encores, Samuel Úria não quer acabar o concerto. Inventa então uma despedida para ir ficando mais um pouco. Desce do palco com a sua guitarra e percorre a sala do São Luiz, seguido dos músicos. Repete o tema que dá nome ao disco, enquanto o coro vai cantando “põe o teu ombro junto ao meu/carga de ombro é legal/põe o meu nome junto ao teu/carga de ombro é legal”. Surgem aplausos mas, quando estes se esgotam, continuamos a ouvir o coro, ao fundo: “Põe o meu nome junto ao teu”…

Este álbum anda a arrebatar estrelas de toda a crítica e diz-se por aí que é sublime na escrita. Samuel Úria sempre foi mestre a brincar com as palavras. Mas aqui aparece a fazer coisas como “aspirar o pop”.

Falta dizer tanto sobre este disco. David Fonseca toca bateria, Francisca Cortesão participa com a sua voz. E não há nenhuma música com a Márcia. O Filipe Cunha Monteiro realizou o vídeo de “Dou-me Corda” e Samuel Úria descreveu-o da melhor maneira possível: “Robe’n’roll, blues menor em gattopardo, Gospel que não vê um pente.”

É tudo bom.

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Samuel Úria vive

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Grande Medo do Pequeno Mundo foi o último registo que Samuel Úria deu a conhecer ao mundo, em 2013, excluindo pontuais covers (de gente como Pink Floyd, Os Paralamas do Sucesso e Dina). O músico andou entretido com as suas habituais colaborações (com o brasileiro Wado e com Márcia) e com projectos como a Cantina, programa de música e conversa que a Antena 3 deu a Samuel Úria durante algumas semanas. Estava mais do que na altura de termos notícias do trovador de patilhas (como em tempos lhe chamou Pedro Mexia). Chegaram hoje.

Se foi a época de renovação pascal ou a sede de pôr música cá fora, não sabemos. Sabemos que já anda aí um single e que chegou com a informação anexa de um novo disco, desvendado a 29 de Abril. Nem será preciso esperar muito, sorte a nossa.

A música de avanço tem por título “Dou-me corda”. Está disponível no Youtube e faz-se acompanhar de uma ilustração ao estilo da capa do último trabalho de Samuel Úria.

Carga de Ombro será o nome do disco, apresentado ao vivo logo no dia do lançamento. O primeiro concerto da nova vida de Samuel Úria acontece então a 29 de Abril, no São Luiz Teatro Municipal. No dia 5 de Maio, o espectáculo repete-se na Casa da Música, no Porto. A entrada tem preço único, 13 euros, e inclui o disco.

O álbum terá a participação de Francisca cortesão (ela que, com os Minta & The Brook Trout, também tem disco de originais novo) em pelo menos uma das faixas, “Vem por mim“. A julgar pelas artes que Samuel Úria já foi divulgando e pelo ritmo arrastado de “Dou-me corda”, o novo trabalho parece ter um tom mais pesado do que o baladeiro preferido dos portugueses tem por hábito entregar.

Por toda a parte, celebra-se o regresso tão aguardado de Samuel Úria.

Em bom português: Beautify Junkyards, Tape Junk, PZ e Márcia

Beautify Junkyards | "Pés na Areia na Terra do Sol"

Beautify Junkyards | “Pés na Areia na Terra do Sol”

Se há novidades que gosto de dar são as da música portuguesa. E há muitas. Vamos a isso.

Beautify Junkyards

The Beast Shouted Love chega de mansinho pela mão da generosa NOS Discos (download gratuito aqui). É o primeiro disco de originais dos Beautify Junkyards, depois de terem medido o pulso aos fãs portugueses de folk fofinha com um conjunto de covers de nomes como Nick Drake, no álbum homónimo que surpreendeu em 2013.

A sonoridade e a estética mantêm-se no território folk. “Pés na Areia na Terra do Sol” é exemplo disso mesmo e tem vídeo a condizer. Para manter debaixo de olho.

Tape Junk

Quem também já andou pela NOS Discos, quando se estrearam com The Good and The Mean, são os Tape Junk. Agora, estes rapazes voltam a entregar misturas de rock e blues em jeito de canções dançáveis, fáceis de apanhar numa qualquer rádio nacional que se preze. Hoje, por exemplo, foi na Vodafone FM que pudemos ouvir algumas das faixas do novo trabalho.

O disco é homónimo, como convém a bandas que trilham o caminho da consagração, e é lançado pela Pataca Discos, primeiro em formato digital e, a partir de hoje, na edição física. À primeira vista, parece que João Correia, Frankie Chavez, António Vasconcelos Dias e Nuno Lucas voltam para nos falar dos temas do costume. Há álcool (“Me and My Gin”), há sinais dos tempos (“Thumb Sucking Generation”), há problemas financeiras (“All My Money Ran Out”), há questões maritais (“Six String and the Booze”).

Os concertos, dizem eles, deverão correr o alinhamento do álbum. Para ver no NOS Alive, com data a anunciar.

PZ

Ir da folk ao blues sem passar pela pop seria um erro. E por isso temos Mensagens da Nave-Mãe, disco novo de PZ. Ele é Paulo Zé Pimenta. Ou o tipo da “Cara de Chewbacca” que também canta sobre “Croquetes” e aparece frequentemente em pijama nos seus videoclips. (mais…)

Márcia prepara novo álbum e actua na Casa Independente

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Márcia | “Cabra-cega”

Reencontrei-me com a música da Márcia há algumas semanas. Lembrei-me daquela sensação estranha de saber que, apesar de ter uma das melhores vozes da nossa praça, a Márcia não é conhecida do grande público.

Junta-se-lhe um talento enorme, um estilo que foge ao convencional e palavras sinceras sussurradas sobre melodias doces. Não é preciso mais. E acho até que é parte do segredo para este ar feliz que ela tem.

O que a Márcia tem também é uma quantidade generosa de amigos igualmente talentosos. Com o Samuel Úria, fez “Menina” para o seu último álbum, Casulo (2013). Com o JP Simões, voltou a gravar “A pele que há em mim” para a reedição de Dá (2011). Ao Tiago Bettencourt emprestou a sua voz para uma versão acústica de “Se me aproximar“. (E, não sei se são amigos ou não, mas fez esta versão de “Às vezes o amor” do Sérgio Godinho, que não se podia deixar passar.)

É também rodeada de amigos que aparece no vídeo do tema “Cabra-cega” (Dá, 2011). E é ele que aqui fica, porque às vezes só apetece passear ao sol levando nos ouvidos uma música leve com letra alegremente desafiadora.

Falta só dizer que a Márcia actua na Casa Independente este Domingo, 3 de Maio, às 19h. E que tem disco novo a sair em Junho, de seu nome Quarto Crescente.